Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)


PISTOLAS DE DUELO

1.      O que eram os duelos?

Os duelos surgiram na Europa durante a Idade Média como uma forma de desagravo de honra entre dois nobres da corte que por motivos diversos se desentendiam e se julgavam ofendidos em sua honra. Muitas vezes e por motivos banais, os duelos ocorriam envolvendo pessoas da nobreza que queriam resolver suas divergências através de lutas com as armas brancas ou com pistolas.

Alguns escritores relacionam o duelo com as “justas” medievais. Somente os nobres poderiam participar das competições esportivas denominadas de “justas”, representando cada qual o seu reino. As “justas” eram um dos eventos mais importante do reino e assistidos por toda comunidade que se apinhava em volta das liças, torcendo  para   o seu cavaleiro favorito. O vencedor era muito aclamado e recebia uma grande soma em ouro. Na maioria dos casos as “justas” tinham um caráter esportivo e tinham como objetivo apenas de“quebrar três lanças”, ou seja derrubar o outro cavaleiro com uma lança de madeira em três oportunidades.

 Entretanto, nos casos de desavenças graves, quando um nobre queria “lavar a sua honra” desafiava o seu oponente para um duelo mortal. Uma das formas de desafiar o seu oponente era bater com a luva no rosto do adversário ou jogar a sua luva aos seus pés. Isto era considerado uma afronta grave e se o desafio era aceito cabia ao desafiante escolher a arma e marcar o local e o dia do combate. No caso da não aceitação do desafio o desafiante era considerado um covarde e a notícia se espalhava por toda a corte.

Luva usada pela nobreza para agendar duelo

 Para a realização do  duelo no século XIX, ambos contendores escolhiam seus padrinhos. Cada afilhado poderia ter um ou mais padrinhos, que o assessorava. Um juiz era escolhido por ambas as partes e deveria ter pleno conhecimento das regras utilizadas, tratadas préviamente, conforme ordenamento das leis vigentes que toleravam essas práticas antigas, que quase sempre vitimava um ou mais duelantes. Os padrinhos asseguravam que o duelo seria realizado de forma igual para ambos contendores e verificavam inclusive se o carregamento das armas era igual. Além dos padrinhos era comum os duelantes levarem médicos para o atendimento dos feridos ou mortos em combate.

Na França, o local escohido para os duelos à bala eram no Bois de Vicenne ou nos Jardins da Tulheria e sempre ocorriam ao amanhecer. A distância de tiro era contada a partir dos duelantes postados de costas um para o outro e após caminharem dez passos  deveriam se voltar um para o outro e  ao comando do juiz realizar o seu tiro. Devido às mortes de pessoas importantes da nobreza, os duelos acabaram sendo proibidos pelo rei e condenados pela  igreja. O último país do mundo ocidental em que o duelo era legal foi o Uruguai, que o manteve em legislação própria até a década de 1980.

A escolha e o preparo das “armas de fogo”

As armas de fogo eram fabricadas artesanalmente aos pares e dispostas em um estojo luxuoso. Recebiam assinaturas de  armeiros famosos da França, como Le Page e da Bélgica Gastinne-Renette. Deveriam ser exatamente iguais e de mesmo calibre. Foram produzidas também na Alemanha e Inglaterra com vários calibres e funcionavam com o  sistema “flintlock”. As primeiras pistolas não eram raiadas e eram carregadas pela boca por um armeiro contratado para o duelo.

 

Estojo com duas pistolas de Duelo

 

O mais interessante é que o duelo acabou se tornando uma modalidade esportiva pois para se tornar uma forma segura, os contendores deveriam vestir uma bata grosseira e pesada de linho, tendo um coração de pano bordado na bata. As munições utilizadas eram feitas de cera e inofensivas. Cada atirador “duelante” usava uma máscara de esgrima para a defesa do rosto. Os procedimentos eram os mesmos usados nos duelos. Cada contendor se situava de costas para o outro e após uma contagem igual de passos se virava e disparavam suas pistolas. O tiro localizado mais próximo do coração era o vencedor e assim sucessivamente até chegar ao campeão da prova.

A modalidade chega ao Brasil

Nascia assim, de forma inusitada, o “paint ball”. No Brasil, o Revólver Club, já em 1916 programava esta modalidade em seu estande à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. O tiro de duelo teve a sua origem, sendo mais tarde regulamentado como uma das partes da prova de Fogo Central.

Observe o interessante aviso colocado no jornal da época, anunciando a prova de Duelo que foi realizada em 4 de julho de 1917 no Revólver Club (História do Tiro ao Alvo – 1986)

No próximo domingo, con curso commemorativo do 3º. Aniversário desta Sociedade, será disputada a prova de duelo.

 De facto, pela primeira vez, em alvo natural, será realizado o concurso atirando um dos adversários contra o outro, com pistolas de duello e balas de cêra. A precisão, porém permanece inalterável, sendo a impressão perfeita para a assistência e o perigo nenhum para os atiradores.O regulamento será o seguinte:   

1º - As provas serão eliminatórias, os vencidos em cada encontro serão eliminados, depois que o tiro attingir (immediatamente);

2º - Cada concorrente terá o direito de dar até três tiros sobre o adversário, a distância de 20 passos;

3º - Os atiradores, até a occasião deverã manter-se de costas um para o outro, nos lugaresdesignados pelo juiz; e ao desfecharem os tiros, voltarão sobre os próprios pés, sem avançar sobre o adversário;

4º - Pela ordem de inscrição, que será encerrada ao meio dia para o início da prova, os atiradores inscriptos bater-se-ão o primeiro com o segundo, o terceiro com o quarto, etc. Caso a inscripção termine com número ímpar, o último bater-se-ha com o vencedor do primeiro pa.

  - Os atiradores serão simultâneos, sendo a infração punida com a eliminação da prova;

6º - Os vencedores do primeiro encontro bater-se-hão entre si até o final, na forma do No. 4;

7º - Os tiros serão disparados à voz de “fogo”, dada pelo juiz, que antes dirá “atenção”;

8º - Em caso de empate, por ambos os atiradores attingirem o alvo, será vencedor o que for attingido em local de menor gravidade;

9º - As decisões do juiz do duello são irrevogáveis”.

1917 - Prova de duelo – Revolver Club

Com o advento das pistolas mais modernas a prova de duelo passou a ser organizada com silhuetas móveis de papel, com a realização de cinco disparos no tempo de 3 x 7 seg.


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex-vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex-presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa", "História do Tiro" e “Manual de Organização de Provas de Tiro”; Professor de História da Educação Física da FGF.

Coordenador do Curso de Educação Física da Faculdade da Grande Fortaleza.
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