Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

Criação do Revólver Club -1914

1. Implantação do Tiro Esportivo
Em face do insucesso da participação da delegação brasileira de Tiro no Campeonato Pan-Americano de Tiro, realizado na capital da Argentina, em 1910, e do declínio da Confederação do Tiro Brasileiro, vários atiradores civis residentes no Rio de Janeiro se reuniram e resolveram construir um estande de tiro onde pudessem praticar o tiro esportivo, com armamento próprio de competição e não somente com armas de guerra utilizadas nas linhas de tiro militares.

Encontraram na pessoa do esportista Alberto Pereira Braga, um bem sucedido comerciante carioca que possuía uma granja na rua Fonte da Saudade, situada junto à Lagoa Rodrigo de Freitas, no sopé do Morro do Corcovado, o apoio necessário para a realização desse sonho. Braga não só cedeu o terreno, mas também custeou a construção do estande de tiro. De linhas sóbrias, com apenas oito “boxes”, o primeiro estande de clube construído Brasil seguiu o modelo europeu, com um piso superior utilizado para observar o andamento da prova sem incomodar os competidores.

Assim, em 15 de maio de 1914, nascia o “Revólver Club”, responsável pela formação daqueles atiradores que iriam brilhar nos Jogos Olímpicos da Antuérpia em 1920, trazendo as primeiras medalhas olímpicas para o Brasil.

As características do estande e do clube foram muito bem descritas por um interessante artigo da época da fundação do clube:
“A situação da sede social, além de aprazível é apropriada para o tiro, pois na parte final da linha de tiro é fechada um pára balas natural.

A construção do stand é de estilo moderno, proporcionando aos frequentadores excelente confôrto.

A linha de tiro, além de optimo aspecto, presta-se perfeitamente ao tiro, pelas obras nellas effectuadas, resultando a máxima segurança e commodidade aos atiradores, durante os exercícios.

Nas trincheiras abrigo estão dispostas, em aperfeiçoados apparelhos, nove alvos que funcionam com rapidez extraordinária, auxiliados pela installação electrica.

Há também um alvo a 15 metros para aprendizes, quatro a 25 e igual número a 50 metros, para atiradores classificados.

Além dos estatutos que regem o Club, está em organização um regimento interno”.

“A 15 de maio, foi eleita a seguinte directoria, em assembléia geral:
Presidente: Major Bernardo de Oliveira
Vice-presidente: Eugênio George
1º Secretário: Gabriel Nicolaus
2º Secretário: Aspirante Guilherme Paraense
Diretor de tiro: 1º. Tenente Arthur Baptista Oliveira
1º. Tesureiro: Alberto Pereira Braga
2º. Tesoureiro: Rodolpho Konding”

“Em assembléia geral foram aclamados sócios beneméritos os srs Alberto Pereira Braga e Arthur Baptista de Oliveira, pelos relevantes e extraordinários serviços prestados ao club, desde a sua organização”.

2. Inauguração do estande
A 21 de junho o estande foi inaugurado oficialmente com a presença de altas autoridades civis e militares, sendo convidado o Presidente da República Marechal Hermes da Fonseca, grande incentivador do Tiro, e parte do seu ministério. A organização das provas atendeu às diversas categorias de atiradores, conforme o programa abaixo descrito pelo jornal da época:

“O concurso inaugural obedecerá ao seguinte programma:

1)Prova Atiradores – Mestres – alvo internacional
distância – 50 metros
disparos – 30 em tres series

2)Atiradores de 1ª classe – alvos c.c. no. 1
distancia – 50 metros
disparos - 18 em três series

3)Atiradores de 2ª classe – alvos c.c. no. 1
distancia – 25 metros
disparos – 18 em três series

4)Atiradores de 3ª classe – alvos c.c. no.1
distancia - 25 metros
disparos – 12 em duas series

O “Revólver Club” representou muito mais do que um clube de tiro grã-fino, instalado em área aprazível do Rio de Janeiro, significou a consolidação do esporte e o seu reconhecimento pelas autoridades civis e militares, além do próprio Governo Federal.

Possivelmente a maior dificuldade da época tivesse sido o número reduzido de boas armas de competição, que ficavam por conta daqueles atiradores que tiveram a oportunidade de adquiri-las no exterior a preços elevados.

3. Provas de tiro
O Clube teve uma vida desportiva muito ativa enquanto durou, sendo, enfim, desativado no início dos anos 20. Os atiradores que freqüentavam o “Revólver Club” perderam o encanto e o interesse de competirem nele devido à construção do espaçoso estande da Vila Militar (1917) e do moderno estande do Fluminense (1919), localizado em área nobre da cidade do Rio.

Não se pode esquecer que importantes e inúmeras provas foram disputadas na sua sede, como a realização dos primeiros campeonatos estaduais, sob o patrocínio do Ministério da Guerra e da Confederação do Tiro Brasileiro. Nos treinos dominicais, chamados de “exercícios” despontaram os grandes nomes do Tiro Nacional daquela época.

Os campeões das provas foram invariavelmente o Tenente Guilherme Paraense, vencedor das provas de revólver a 25 metros, de Afrânio Costa, campeão das provas de pistola livre a 50 metros, Fernando Soledade e o próprio Alberto Pereira Braga.

Uma das modalidades mais animada e concorrida registrada nos anais da história do “Revólver Club” foi a prova de duelo, onde cada dois atiradores, por vez, “batiam-se” entre si, vestidos com longas e pesadas batas e portando máscaras de esgrima para se protegerem. Tal qual um duelo do século XVIII, os competidores se postavam inicialmente de costas um para o outro e a um sinal do juiz, iniciavam a contagem das passadas regulamentares, cerca de dez passos, voltavam-se um contra o outro e disparavam imediatamente.

Os armamentos usados pelos dois contendores eram antigas armas de duelo, carregadas com uma bala de cera. Os atiradores iam sendo eliminados pelo local do “impacto da cera” e que estivesse mais longe do ”coração” de pano vermelho costurado sobre a bata. Era proclamado campeão aquele que superava o último concorrente. Essas foram, certamente, as primeiras provas de “paint ball” realizadas no Brasil, revestidas da maior segurança possível, foram as precursoras da modalidade duelo, atualmente conhecidas como tiro rápido.

Alberto Pereira Braga teve um papel fundamental na implantação do tiro na antiga capital federal, sendo depois seguido por seu filho Armando Braga e pelo neto Alberto Pereira Braga, todos grandes desportistas que se tornaram campeões de tiro.


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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