Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

1923 - Fundação da Federação Brasileira de Tiro

1.Reflexos da conquista das primeiras medalhas olímpicas
Uma notícia publicada em um matutino do Rio de Janeiro em 1920 trouxe uma nova realidade para o Tiro Esportivo e para as modalidades desportivas que também se beneficiaram com o fato: “A notícia das primeiras medalhas olímpicas correu todo o País dando conta do feito de um punhado de dedicados atletas, que mesmo sem contar com o apoio necessário, demonstraram a capacidade de adaptação e de criatividade do homem brasileiro, superando todos os problemas e obtendo uma vitória memorável”.

Equipes como a França, considerada uma das melhores do mundo, não obteve o sucesso esperado nesses jogos, a par de toda a sua meticulosa organização. O chefe da equipe francesa, em seu relatório transcrito na revista da UIT “Le Tir National”, faz uma análise completa do treinamento e do apoio do governo francês:
“cerca de 8.000 francos foram destinados à compra de 20 fuzis suíços e de 20 modernas pistolas, além de conceder uma bolsa de 120 francos a cada atirador, pelo período de três meses em que ficariam treinando à disposição do governo”.

O mesmo relatório também fazia severas críticas à organização belga, apontando como causa do fracasso da equipe francesa: “as precárias instalações do estande de tiro, montado ao ar livre, sem oferecer as mínimas condições de conforto aos atiradores”.

No Brasil, as principais conseqüências da vitória de Paraense, Afrânio e de toda equipe brasileira foram:
1) Regulamentação das provas de tiro, segundo as normas e regulamentos da União Internacional de Tiro (UIT);
2) Inclusão da competição de Tiro no programa dos Jogos Latinos-Americanos, nas festividades que comemoraram o Centenário da Independência do Brasil, em 1922, no Rio de Janeiro;
3). Desenvolvimento do Tiro Esportivo no Rio de Janeiro e nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais, com o surgimento de vários clubes.
4) Criação da Federação Brasileira de Tiro (FBT), em 1923, sob os auspícios da Liga de Defesa Nacional e do Comitê Olímpico Brasileiro. O Tiro Nacional desligava-se da direção da Diretoria Geral de Tiro e da CBD, alcançando a sua maioridade desportiva.

2. Declínio e fechamento da DGTG
A Direção Geral de Tiro do Guerra, sob a direção do Coronel Olavo Manoel Corrêa”, realizou antes do seu fechamento importantes eventos desportivos:
a. Concurso de Tiro - Tiro de Guerra 6 - no estande da Polícia Militar (Rua Frei Caneca) em 03 de abril de 1921 com as provas:
1) “Prova Dr. Paulo de Frontin” – revólver – 50 m – 15 tiros, vencida por Alberto Pereira Braga com 94 pontos, superando o Dr. Afrânio Costa por um ponto.
2) “Prova Cel Olavo Manoel Correia” - fuzil 300 m - alvo de 12 zonas - sendo 5 tiros deitado

b. Grande Campeonato de Tiro ao Alvo – 27 Nov 1921 – Vila Militar. Foi um dos maiores campeonatos organizados pela DGTG e que contou com 530 concorrentes, sendo 306 atiradores filiados às Sociedades de Tiro. Onze provas foram disputadas, participando atiradores de quatro estados e sagrando-se vencedor o TG – 318 de Porto Alegre.
Resultados das principais provas:
a. Revólver ou Pistola de Guerra (Parabelum) – 50 m – 10 tiros
1º) 2º Ten José Alves Magalhães – 61 pontos
2º) 1º Ten Eurico Mariano de Oliveira – 61 pontos
3º) 2º Ten Heitor José Vieira – 59 pontos
4º) 1º Tem Ayrton Plaisant – 58 pontos
5º) Cap de corveta Geraldo Martins – 15 pontos

b. Revólver ou Pistola de Guerra 50 metros – 15 tiros
1º) Dr Afrânio Costa – 115 pontos
2º) Ten Antônio Ferraz da Silveira – 109 pontos
3º) Cap Aristides Paes de Souza Brasil – 101 pontos
4º) Atirador Alberto Cruz Santos – 101 pontos
5º) 1º Ten Demerval Peixoto – 100 pontos

A DGTG ainda realizou em 10 de junho de 1922, o “Concurso Defesa Nacional”, na Vila Militar, onde foi disputada pela primeira vez uma prova de carabina para damas, 25 metros – 10 tiros, que teve o seguinte resultado:
1º) Srta. Jandira Moreno – 93 pontos
2º) Srta. Rosa Vigorano – 82 pontos
3º) Mme. Cap Vigarano – 80 pontos

A outra prova foi revólver 50 metros - 24 tiros - em 180 segundos cada tiro. Este tipo de prova em muito se assemelha com as “provas finais”, realizadas hoje em dia, e teve como resultados:
1º) Dr. Afrânio Costa – 123 pontos
2º) 1º Ten Demerval Peixoto – 119 pontos
3º) Cap Aristides Paes Brasil – 117 pontos

Com a situação política se agravando no País, em decorrência do desencadeamento do “Movimento Tenentista”, com o episódio dos 18 do Forte no Rio de Janeiro, a DGTG acabou sendo desativada, chegando ao fim depois de desempenhar um ciclo importante com a implantação do Tiro Esportivo no Brasil. Seria substituída por uma instituição desportiva civil encarregada de traçar os novos rumos do esporte.

3. Jogos Latino-Americanos
Durante a comemoração do Centenário da Independência do Brasil, em 1922, ocorreu no Rio de Janeiro uma Exposição Internacional, que envolveu toda a região central da cidade e mobilizou boa parte da população. As multidões compareciam aos eventos, às festas e aos desfiles e aos pavilhões das artes e ofícios de diversos países.

Juntamente com a Exposição, foram organizados os Jogos Regionais da América do Sul, também denominados de “Jogos da América do Sul” e “ Jogos Latino-Americanos”. A realização destes Jogos teve a ver diretamente com o propósito do barão de Coubertin de expandir o Movimento Olímpico para além da Europa e dos Estados Unidos, organizando sob a sua chancela “jogos regionais” nos continentes.

Pretendia-se, desde então, que estes jogos se realizassem de quatro em quatro anos, intercalados com os Jogos Olímpicos. Para verificar a viabilidade deste evento, foi enviado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) o conde de Baillet-Latour, que se tornara presidente do COI, depois da saída de Coubertin. Ele esteve presente na Abertura dos Jogos, que contou com a presença do Presidente da República, Arthur Bernardes, e ocorreu em 6 de setembro de 1922, no Estádio do Fluminense, remodelado para acolher as disputas atléticas e um público de 20.000 pessoas.

Os Jogos oficiais estenderam-se até 16 de setembro, com disputas de remo, tiro, atletismo, hipismo, boxe, tênis, esgrima, natação, saltos ornamentais e pólo aquático. Estiveram presentes representações desportivas da Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.

O Tiro Esportivo foi inserido neste evento internacional, graças aos magníficos resultados alcançados pela equipe nacional, nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. O Dr. Arnaldo Guinle, Presidente do Fluminense e Dr. Afrânio Costa foram os responsáveis pelo movimento da inclusão das provas de tiro.

O Ten Guilherme Paraense, justificando plenamente o seu favoritismo, venceu a prova de revólver, seguido do Ten Antônio Ferraz da Silveira e do campeão argentino Cunnings. A equipe brasileira sagrou-se campeã com Dr. Afrânio Costa completando a equipe. Na prova fuzil de guerra, a equipe argentina foi a vencedora.

4. Fundação da Federação Brasileira de Tiro (FBT)
Após a realização dos Jogos Latino-Americanos, os dirigentes do tiro, liderados por Afrânio Costa, sentindo-se suficientemente organizados e fortalecidos pelo desempenho da equipe brasileira na Antuérpia e nos Jogos realizados em 1922, trataram de projetar o Tiro Esportivo, tornando-o independente das instituições que conduziram os seus passos desde 1906.

Com a experiência adquirida à frente da Seção de Tiro ao Alvo do Fluminense e contando com o apoio imprescindível do Dr Arnaldo Guinle, membro do Comitê Olímpico Brasileiro, Afrânio procurou inspirar-se na União Internacional de Tiro (UIT) para modelar a nova entidade.

Atiradores como Benjamim Oliveira Filho, Ivo Arruda, Heitor Beltão, Gabriel Bernardes e Afrânio se revezaram na confecção dos Estatutos da nova entidade. A tarefa foi trabalhosa, porém muito bem conduzida, não faltando a participação de outros atiradores, pois todos queriam participar deste novo projeto que engrandeceria o esporte do Tiro.

No Diário Oficial de 1923, foi publicada a criação da Federação Brasileira de Tiro, que teve como principais artigos do seu estatuto:
Art. 1 – “A Federação Brasileira de Tiro, fundada a 2 de julho de 1923 no Rio de Janeiro, onde tem a sua sede, sob os auspícios da Liga de Defesa Nacional e da Diretoria Geral do Tiro de Guerra, é uma sociedade civil, de caráter meramente esportivo, destinada a intensificar e robustecer os laços de solidariedade entre atiradores brazileiros, unindo-os sempre pelo amor à Pátria. Outrossim, terá como escopo auxiliar a organização e a conservação do Tiro entre as que constituem ou vão constituir as reservas do Exército nacional: não só despertando o interesse dos cidadãos pelo manejo das armas de fogo, habilitando-os pelo esporte à práctica de armas, dessa natureza, visando principalmente os que ainda não atingiram à edade militar, como também, attrahindo, desenvolvendo e aperfeiçoando os que já souberam atirar”.

Art. 2 – “Para tal fim a Federação deverá:
a) estimular, por meio de campeonatos e competições periódicas, o desenvolvimento do esporte do tiro e das sociedades filiadas à federação;
b) interceder junto às autoridades competentes para que seja permitido aos Tiros de Guerra, que se filiarem à federação a organização de provas e concursos esportivos, com armas regulamentares ou não, sem prejuízo da disciplina militar a que estiverem sujeitos e dentro destes Estatutos;
c) prestigiar as sociedades federadas, amparando-as sempre que a Comissão Diretora a julgar necessário;
d) incentivar a construção de stands ou campos de tiro, onde se possa practicar o tiro esportivo, procurando crear em cada Capital de Estado, pelo menos um stand modelo;
e) procurar obter reduções nos transportes, hotéis e tudo mais que facilite o comparecimento freqüente aos campos ou stands de tiro;
f) estabelecer uniformidade nas provas e concursos esportivos promovidos pelas sociedades federadas, organizando para tal fim regulamentos especiais, que deverão aproximar-se o mais possível da normas internacionais em uso;
g) organizar grandes campeonatos Nacionais e Internacionais, selecionando, adestrando e cuidando dos elementos que deverão formar as representações nacionais no estrangeiro, facilitando tudo quanto puder concorrer para o triumpho e renome do Brazil”.


A primeira diretoria foi assim constituída:
- Presidente: Dr. Miguel Calmon du Pin e Almeida
- 1º Vice-presidente: Dr. Henrique Coelho Neto
- 2º Vice-presidente: Dr Plínio Marques
- 3º Vice-presidente: Cel João Heliodoro de Miranda
- 1º Secretário: Dr. Afânio Antônio da Costa
- 2º Secretário: Dr. Gabriel Loureiro Bernardes
- 3º Secretário: Dr. Heitor da Nóbrega Beltrão
- 1º Tesoureiro: Dr. Juvenal Murtinho Nobre
- 2º Tesoureiro: João Bosisio
- 3º Tesoureiro: Afonso Vizeu
- Conselho Técnico: Dr. Benjamim de Oliveira Filho
1º Ten Euclydes Zenóbio da Costa
1º Ten Antônio Ferraz da Silveira
Oscar Thiers de Faria
Paulo Lorena



por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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