Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

1920 - Jogos Olímpicos da Antuérpia
PARTE I

1.Criação do Comitê Olímpico Brasileiro
Embora fosse reconhecido oficialmente somente em 1935, a criação do Comitê Olímpico Brasileiro ocorreu em 8 de junho de 1914, no Rio de Janeiro, sendo um marco na História do Esporte Brasileiro. Seu primeiro presidente, o maranhense Fernando Mendes de Almeida, juntamente com outros membros do comitê não mediram esforços apoiando a ida da delegação brasileira aos Jogos Olímpicos da Antuérpia, em 1920. No entanto, a Confederação Brasileira de Desportos era a entidade responsável pelo esporte em geral no Brasil, mais tarde cederia a vez ao COB.

2.Seleção e preparativos da equipe brasileira
Por intermédio do relatório do Dr. Afrânio Antônio da Costa, Chefe da equipe de tiro é possível imaginar as dificuldades que o COB e a CBD tiveram para selecionar, preparar e inscrever as diversas equipes, como tiro, remo, water-pólo, natação e saltos ornamentais nos Jogos Olímpicos da Antuérpia. As dificuldades foram, sobretudo de ordem estrutural, técnica e econômica.

Na época os atletas, de modo geral, contavam com o descrédito e a incompreensão de parte significativa da “intelectualidade brasileira”, que atacavam o desporto pelos jornais e revistas, vendo nele “uma ameaça à juventude e à sua formação”, prestando-se mais aos “desocupados e vagabundos”. Por outro lado, inúmeros colaboradores conscientizados do valor do esporte, apoiaram nesse período difícil a nossa equipe, mediante doações, como foi o caso do Sr Faustin Havelange, proprietário da casa de armas Laporte e pai do famoso desportista e dirigente João Havelange, ex-presidente da FIFA.

Inegavelmente o Tiro Esportivo recebeu um valioso apoio do Exército Brasileiro, por intermédio da Diretoria Geral do Tiro de Guerra, colaborando com os torneios seletivos e provas preparatórias, além de alojar os atiradores civis e militares de outros Estados.

Após ter sido feita a seleção, nossa equipe ficou assim constituída:
• Capitão da equipe (chefe da equipe) –Dr. Afrânio Costa
• Equipe de pistola livre: Afrânio Costa; Sebastião Wolf; Dario Barbosa; Fernando Soledade e Tem Guilherme Paraense.
• Equipe de revólver: Ten Guilherme Paraense; Ten Demerval Peixoto, Sebastião Wolf; Fernando Soledade e Ten Mário Maurity.

3.Viagem da Delegação Brasileira
“A delegação brasileira seguiu para a Europa no dia 01 de julho de 1920, sob a chefia do Dr. Roberto Trompowsky, a bordo do navio Curvelo, pertencente ao Loyd Brasileiro. Deixava atrás de si, as maledicências dos descrentes e dos invejosos, que se referiam às aspirações da equipe, da seguinte forma”:
- “Não vão arranjar nem pro bife”

Sobre o navio e a viagem, Afrânio Costa fez os seguintes comentários:
“O Curvelo estava longe de ser um transatlântico de luxo. Tratava-se de um navio de 3ª classe, sem o mínimo conforto, com seus camarotes mais se parecendo com uns cubículos, sem ar, sem mobiliário e ainda acima de tudo sem água. Diante disso, os atletas foram ao comandante Reis Júnior e pediram para dormir no bar, pois era mais amplo e mais arejado do que os camarotes. O comandante logo acedeu, porém, com a condição de que só poderiam utilizá-lo como dormitório, após a saída do último freguês do bar. Após arranjarem uns cobertores, todos fizeram a viagem dormindo no chão.

No dia da chegada à Ilha da Madeira, Reis Júnior informou ao Dr. Trompowsky que o Curvelo somente chegaria à Antuérpia no dia 5 de agosto. Entretanto, de acordo com as últimas notícias do Comitê, as provas de tiro deveriam ter início a 22 de julho. Diante desse impasse, o Dr. Trompowsky telegrafou ao Presidente do CBD pedindo remessa urgente de quantia necessária ao prosseguimento da equipe de tiro por terra, a partir de Lisboa. Enviou, também, outro telegrama ao Embaixador do Brasil em Portugal, solicitando reservar passagens no comboio internacional.

Ao chegar em Lisboa, nossa delegação foi informada de que os nossos recursos não haviam chegado. Graças ao Embaixador Belfort Ramos, que tomou todas as providências e adiantou a importância necessária à aquisição das passagens, a equipe de tiro pode prosseguir de trem para Antuérpia.

Já em Antuérpia, essa equipe recebeu do Ministro Barros Moreira a importância de 2.000 fr para a compra de armas e munições, pois, tinha sido roubada em Bruxelas em alvos e quase toda a munição 38”.

A aventura dessa equipe não terminava aí, na cidade, sede dos Jogos. O local designado para as provas de tiro, situava-se a 18 km de Antuérpia, no Campo de Beverloo, área destinada ao campo de manobra do exército belga.

Foi com esse estado de corpo e espírito, em que os nossos atiradores, sem dormir e mal alimentados, debilitados ainda mais pelo frio, chegaram à Beverloo, a 26 de julho, ao meio-dia”.

4. Escolha da cidade de Antuérpia para sediar os VIII Jogos A História dos Jogos Olímpicos foi sempre traçada com muito respeito aos povos e aos atletas. A VII Olimpíada estava prevista para ser realizada em agosto de 1916 na cidade de Berlim, porém foi suspensa em face do grande conflito que envolveu muitas nações e que enlutou milhões de famílias. A I Grande Guerra interromperia drasticamente a série de Jogos, além dos demais eventos desportivos internacionais.

Durante os anos de 1914 a 1918 os estádios, as pistas de atletismo e os estandes permaneceram fechados ou vazios. Milhares de atletas forma convocados pelo Serviço Militar de seus países, para lutarem nos diversos “fronts” espalhados por toda a Europa.

Por ironia do destino a Guerra iria colocar frente a frente, alguns dos melhores atiradores da época, campeões de seus países. Dessa feita, não mais como simples concorrentes a um título mundial, mas como inimigos, em decorrência do Estado de Guerra existente entre seus países.

Vários desses ex-campeões não mais voltariam a disputar as alegres provas domingueiras em seus clubes de tiro, por terem tombado no “campo de honra”, conforme os relatos da revista francesa especializada em Tiro – “Le Tir National”.

Assinada a paz, o movimento olímpico foi retomado pelos países vencedores, tentando através do esporte, cicatrizar as feridas causadas pela Guerra. Não obstante, a Alemanha e a Áustria não foram convidadas para a Olimpíada da Antuérpia.

O Comitê Olímpico resolveu manter a continuidade da numeração dos Jogos Olímpicos, como se não houvesse interrupção provocada pela I Guerra Mundial. A cidade de Antuérpia foi escolhida, como uma justa homenagem à heróica resistência de sua população, durante a invasão das tropas alemãs em território belga.

O exército alemão em seu avanço pela Europa ocupou a Bélgica e destruiu todas as instalações militares do exército belga, inclusive os seus estandes de tiro. Este fato, como veremos mais adiante, trouxe inúmeros problemas para a organização das provas de tiro e para os atiradores.

Os efeitos causados pela Guerra ainda estavam muito visíveis. A Bélgica tinha sofrido bastante com a longa ocupação e obviamente não estava preparada para sediar e organizar uma Olimpíada. Contudo, graças à persistência do Rei Alberto, grande desportista, foi possível realizar a Olimpíada. Em menos de um ano foi construído o estádio Olímpico, com capacidade para 30.000 pessoas, e que se transformaria no palco dos principais acontecimentos desportivos.

5. Cerimônia de Abertura
No dia da Abertura dos Jogos, com a presença do Rei Alberto, vestido com uniforme militar, foi lido pela primeira vez o juramento olímpico por um atleta belga, sendo repetido com grande entusiasmo pelos 2600 atletas presentes, representando as 29 nações inscritas.

A Bandeira Olímpica também foi hasteada pela primeira vez, com os seus cinco anéis coloridos entrelaçados, simbolizando a união do mundo (cinco continentes) através do esporte e as cinco cores representando as bandeiras de todos os países.

Estava também presente o barão Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos, prestigiando o evento ao lado do Rei Alberto e de outras autoridades do Comitê Olímpico Internacional.

O público presente que lotava o estádio aplaudiu com muita emoção a passagem dos grandes campeões de Olimpíadas passadas, além das equipes mais conhecidas. E foi com muita admiração e simpatia que os belgas aplaudiram uma equipe que vinha de tão longe para participar pela primeira vez de uma Olimpíada – a equipe brasileira, desfilando garbosamente e tendo como seu porta-bandeira, um oficial envergando o tradicional uniforme do Exército Brasileiro, o Tenente Guilherme Paraense.

6.Treinos em Beverloo
Os atiradores e o capitão da equipe ficaram instalados em barracas de oficiais subalternos, “em que uma cama de ferro, uma bacia de folha e uma mesa de pinho, constituíam toda a mobília. Em todo caso era bem limpo e a gentileza do capitão De Smetts e do tenente Waetts tudo fizeram para nos facilitar”

“Cada país ocupava normalmente duas barracas dispostas em linhas ao longo de uma avenida. A bandeira de cada país concorrente era hasteada diariamente em frente às suas barracas. Uma cantina situada no meio das barracas de “justiça” (apuração), encarregava-se de servir as refeições aos qtiradores e dirigentes: o café era servido a partir das 07:00 horas, ao preço de 1 fr e 75 cents; o almoço, ao meio-dia e o jantar às 18:00 horas, ao preço de 3 fr e 50 cents”.

Afrânio prossegue em seu relatório: “Chegados que fomos. Dirigi-me à secretaria para as necessárias instruções, interessando-me mais que os outros quaisquer ao “exercício diário” (treinamento) da equipe. Indagando então sobre o local, hora, condições, etc, obtive a seguinte resposta”:
- “Podem exercitar-se em qualquer lugar!”

“Fiquei na mesma e insisti se não havia alvos trincheiras, marcadores, enfim, o necessário para um rigoroso preparo do tiro. A resposta deu-me a idéia nítida do concurso:
- Em virtude dos alemães terem destruídos os estandes, aprova seria em “campo aberto”, implicando na ausência de qualquer tipo de auxílio por parte do Comitê do Tiro durante os treinamentos, cabendo ao atirador a responsabilidade do seu próprio material, inclusive alvos.

Fiquei logo inteirado acerca da ação dos dirigentes do concurso. Nessa mesma noite, procurei aproximar-me dos americanos, cujo conforto era notável e não necessitavam mendigar esmolas do seu governo para seu sustento. Era o único recurso para remediar os desfalques que houvéramos sofrido em alvos e munições.

Lane e Braeken, dois famosos campeões, jogavam uma partida de xadrez: fui “peruar” o jogo e, as folhas tantas, arrisquei uma opinião na partida e eles acharam boa. Daí por diante entraram em franca camaradagem e no final da noite já me haviam dado mil cartuchos 38, mil balas 22 e 50 alvos, material expressamente fabricado para o concurso.

No dia imediato ao da chegada, ciente de que já estava da carência absoluta de material para o exercício, procurei o capitão De Smetts, afável e gentil oficial do 24º Regimento de Infantaria e dele consegui um soldado para fazer sete toscos suportes para alvos. Às 08:00 horas da manhã, sem a menor orientação sobre o local onde nós deveríamos instalar, entregues unicamente à minha iniciativa de chefia de equipe, partimos para o Campo sob uma chuva persistente e copiosa. A 3 Km de distância, marchando à pé, através de um caminho arenoso, sem qualquer veículo que nos transportasse e carregados de armas, cavaletes, alvos, munições, etc, chegamos ao local. Aí deparamos com a equipe portuguesa treinando, como a instalação ficara ao nosso arbítrio, instalamo-nos a seu lado.

O Campo de manobra de Beverloo estava situado a 3 km, da estação Bourg-Leopold (local do acampamento dos organizadores e dos atiradores). Era uma vasta planície arenosa, que se estendia por 38 km na direção da Holanda, chegando até suas fronteiras. No lugar destinado às provas, não havia abrigos ou árvores, onde nos intervalos dos exercícios pudéssemos descansar.

Após instalados, iniciamos os preparativos para o exercício. E como não houvesse marcadores, nem ao menos trincheiras, éramos nós obrigados a nos revezarmos junto aos alvos, expondo a vida a perigo a cada instante, e perturbando o companheiro que atirava, na inquietação constante que tal situação lhe inspirava.

O tempo entrara em aliança contra os atiradores; um vento frio e cortante obrigava, de quando em vez, a interromper o tiro para aquecermos as mãos, esfregando uma de encontro à outra. E como não houvesse abrigos, ali ficamos até uma hora da tarde, expostos às intempéries. A essa hora viemos almoçar no acampamento, para voltar ao Campo às 15:00 horas e lá ficarmos até a “boca da noite”.

E assim continuamos com a maior regularidade os exercícios, diariamente, até a realização das provas”.



por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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