Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

1920 - Jogos Olímpicos da Antuérpia
II PARTE

1. Realização da prova de pistola livre
“No dia 4 de agosto, a equipe brasileira de pistola livre foi sorteada para atirar no bloco “O”, entre as equipes norte-americana e sul-africana, distante de nós 60 metros.

A inferioridade da única arma livre que possuíamos, em relação às aperfeiçoadíssimas dos nossos concorrentes, não nos permitia ter a menor esperança.

Destaquei Soledade para atirar em primeiro lugar, o seu resultado ruim atestou imediatamente a inferioridade da arma, pois em revólver era um ótimo atirador. Nesta ocasião o coronel Snyders, do exército americano e capitão da equipe de pistola livre (os americanos apresentaram uma equipe completa para cada arma, isto é, 35 atiradores, além de 5 capitães de equipe, majores ou coronéis, chefiados por um general), aproximando-se, disse-me:
- Sr Costa, esta arma não vale nada, vou arranjar duas para os senhores, feitas especialmente para nós pela fábrica Colt.

E voltou dentro em pouco trazendo duas belíssimas armas. Retificadas as armas por ele próprio, entregou-as desejando melhor resultado. Este não se fez por esperar: Wolf mais 39 pontos que Soledade; Dario segue-lhe o exemplo e Paraense obtém mais 20 pontos do que Wolf. Vieram então dizer-nos que, obtendo eu resultado igual ao Paraense, venceríamos os gregos, em 3º lugar, por quatro pontos.

Eram 05:30 h da tarde e várias equipes, terminadas as provas, vinham se agrupando em torno da nossa. Da 1ª série à ultima, foi aumentando gradativamente até o final. Conseguira as duas maiores séries (88 e 90 pontos), obtendo um resultado maior 31 pontos do que Paraense. Classifiquei-me em 2º lugar com 489 pontos, a sete pontos do americano Frederick, obtendo a nossa equipe o 3º lugar”.

“No dia 5 pela manhã havendo limpado cuidadosamente as armas, dirigi-me ao alojamento do coronel Snyders para entregá-las com os nossos agradecimentos. A minha gratidão transformou-se em profunda surpresa, quando me disse que eu lhe fizesse a honra de continuar a atirar com a arma e que esperava por ocasião do concurso Pan-Americano de Tiro, em 1922, que fosse eu o vencedor da prova”.

Essas foram as duas primeiras medalhas olímpicas obtidas por brasileiros em competições desportivas, por intermédio de Afrânio Costa (prata) e pela equipe de pistola livre (bronze). Trata-se de um momento extraordinário na História do Tiro e do Esporte Nacional e pela forma inusitada que ocorreu.

2. Prova de revólver
A prova de revólver, onde Guilherme Paraense obteve a medalha de ouro, foi assim descrita por Afrânio:
“A equipe brasileira entrou em campo assim constituída: Paraense, Wolf, Soledade, Maurity e Demerval. Afrânio, apesar do feito e da forma revelada na véspera, não concorreu à prova de revólver. Os atiradores resolveram, como já fora praticado na prova de pistola, fazer o “tiro amplo”, isto é, atirar simultaneamente para a prova individual e para a de equipe.

Colocados em linha, iniciam a prova, destacando-se desde logo Guilherme Paraense, com uma série de 93 pontos. O campeão brasileiro, em condições normais, readquiria rapidamente a sua forma habitual; e a segunda série de 92 pontos, colocou-o em condições de francamente vencer o campeonato.

Muitos atiradores se encontravam no local e, apesar dos insistentes pedidos que lhes dirigia, seguiam a “desorientação” geral e foram se instalar atrás de Paraense, que se preparava para iniciar a 3ª série. Como não era permitido o uso da luneta ou binóculo por parte dos atiradores, foi a assistência, precedendo ao atirador e ao próprio júri, a primeira a tomar conhecimento do grande feito de Paraense, pois, seus últimos tiros foram acompanhados com grande interesse. Isso porque, aquele desconhecido brasileiro estava derrotando o ex-campeão olímpico Alfred Lane!

Sem se importar com a torcida, Paraense terminou muito bem a sua última série, obtendo 89 pontos, sagrando-se novo campeão olímpico.

Após o término da apuração, com Paraense tendo recebido os cumprimentos do Presidente da UIT – Daniel Mérillon e dos demais atiradores, um grupo de atiradores europeus, tentou impugnar a vitória do nosso patrício, alegando que o mesmo tinha atirado com um revólver de mira ajustável. Como capitão da equipe, imediatamente intercedi junto ao júri, mostrando-lhe o regulamento que nada determinava sobre o fato e que vários atiradores competiram com armas semelhantes. A partir desse momento ninguém mais pôs em dúvida a vitória de Paraense que recebeu um belíssimo troféu de bronze e uma medalha de vermeil.

Infelizmente o esforço heróico do campeão brasileiro não logrou levantar a equipe, cujos fracos resultados de alguns componentes, colocaram-na em 4º lugar, a sete pontos dos gregos.”

Esses foram os resultados das duas provas disputadas, que asseguraram as três medalhas olímpicas para a nossa equipe:

a. Prova de Pistola Livre (50 metros – 60 tiros de competição – 18 tiros de ensaio)
1) Individual (94 atiradores):
• 1º Carl Frederick – EUA – 496 pontos
• 2º Afrânio Costa – BRA - 489 pontos
• 3º Alfred Lane – EUA – 482 pontos
2) Equipe (17 países):
• 1º EUA – 2374 pontos
• 2º SUE – 2289 pontos
• 3º BRA – 2264 pontos
b. Prova de Revólver (30 metros – 30 tiros de competição – 6 tiros de ensaio):
1) Individual (38 atiradores)
• 1º Guilherme Paraense – BRA – 274 pontos
• 2º Raymond Braeken – EUA – 272 pontos
• 3º Fritz Zulauf - SUI - 269 pontos
2) Equipe (8 países):
1º EUA – 1309 pontos
2º NOR – 1285 pontos
3º GRE - 1270 pontos
4º BRA - 1261 pontos

3. A notícia chega ao Brasil
A notícia sobre o feito da equipe de tiro chegou ao Brasil, dias após a vitória de Paraense na prova de revolver. Foi divulgada através de um jornal da época, de uma maneira bem pitoresca, típica da cidade do Rio de Janeiro dos anos 20.

“Eis que a sirene do Jornal do Brasil, com todo o vigor, anunciou algo sensacional. A multidão correu para frente do edifício da Avenida Rio Branco. Um funcionário escreveu num quadro negro o teor de um telegrama da Antuérpia”:
- “Os brasileiros Guilherme Paraense e Afrânio Costa conquistaram o primeiro título mundial olímpico para o Brasil”.

“Imediatamente, gritos de entusiasmo se fizeram ouvir, atraindo a atenção das Demais pessoas que passavam. Um dos diretores do jornal hasteou a Bandeira Nacional e todos os presentes cantaram emocionados o Hino Nacional. Não faltaram também oradores e pessoas que se diziam amigas ou conhecidas dos atiradores”.

“À noite, a banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro executou Tanhhauser, de Wagner, na Praça Paris. Mas o povo não queria ouvir Wagner. Queria comemorar o feito dos dois brasileiros tomando chope, servido nos bares mais tradicionais do Rio. O “Adolfo”, o “Lamas” e a “Galeria Cruzeiro”, acolheram uma grande multidão, onde os famosos oradores cariocas, enalteceram a pontaria e a firmeza desses dois heróis, sob ruidosas e demoradas salvas de palmas”.

4. Retorno da equipe brasileira
O relatório do Dr. Afrânio retrata assim a volta da equipe:
“O retorno da equipe não foi mais no Curvelo, triste e desfigurada “banheira” do Loyd, porém, num navio decente, cheio de gente importante, com todas as passagens pagas pelo Governo Federal. Era um justo reconhecimento pelo memorável feito!

Inúmeras autoridades políticas e desportivas e uma multidão curiosa aguardavam ansiosamente o desembarque da delegação brasileira no cais do porto do Rio de Janeiro para conhecer e abraçar o campeão e o vice-campeão olímpico”.

A famosa revista “Careta” publicou uma grande fotografia comemorando o acontecimento. Nela aparecem em primeiro plano O Tenente Paraense e Afrânio Costa, exibindo orgulhosamente suas respectivas medalhas de ouro e prata.

Em fevereiro de 1921, no Salão Nobre do Fluminense Football Club, o Presidente da República Dr. Epitácio Pessoas, com todo o seu ministério, além dos dirigentes da CBD e do COB, entregou uma placa de prata a cada um dos dois desportistas por suas magníficas participações na Antuérpia.


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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