Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

A Família Wolf e o Tiro 4

Após a fundação do Tiro Nacional em 1899, no Rio Grande do Sul, através de um trabalho cívico idealizado pelo gaúcho Antônio Carlos Lopes e inspirado no modelo do serviço militar da Suíça, o Ministro da Guerra General Hermes da Fonseca determinou a construção de inúmeras Linhas de Tiro em todo território nacional, com a finalidade de incrementar a prática do Tiro ao Alvo e a instrução militar do Exército Brasileiro.

O modelo já havia sido adotado pelo país vizinho com bons resultados, no final do século XIX, com a criação do Tiro Federal com a sede localizada na cidade de Buenos Aires e com a disseminação de outros estandes pelo território argentino.

O Tiro Federal da Argentina antecedeu a criação da Confederação do Tiro Brasileiro (CTB), oficializada pelo Decreto No. 1503, de 05 de setembro de 1906, com sua sede estabelecida na cidade do Rio Grande, no Rio Grande do Sul, ficando subordinada ao Estado-Maior do Exército.

No Brasil, houve muita reação contra o Serviço Militar obrigatório, através dos jornais e das famílias de maior renda que não queriam ver seus filhos fora dos estudos e do trabalho. No entanto, vozes também se levantaram a favor do Serviço Militar Obrigatório. Um dos grandes defensores da criação do Serviço Militar foi Olavo Bilac que defendia a idéia de que todo cidadão deveria se apresentar voluntariamente para prestar o serviço militar e participou de uma grande campanha cívica movida em todo país.

Para se ter uma idéia da importância da Confederação Brasileira de Tiro, em toda a sua existência reuniu cerca de 127 sociedades (clubes) e filiou mais de 20.000 “atiradores”, nome dado aos associados, prestando inestimáveis serviços à Pátria. No Rio Grande do Sul foram construídas 18 Linhas do Exército e 110 pelas Sociedades de Tiro de origem germânica. A Confederação foi dirigida pelo Dr Elysio de Araújo e as sociedades foram criadas em várias localidades do território. Além do Rio Grande do Sul, foram criadas no Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e até no Amazonas. Em 15 de novembro de 1909, foi realizada uma grande parada militar das Linhas de Tiro na capital da República e organizado o primeiro campeonato brasileiro de tiro, na Vila Militar, patrocinado pela Confederação.

Mais tarde, em 1917, o General Hermes da Fonseca resolveu transferir a sede da Confederação do Tiro Brasileiro para o Rio de Janeiro, instalando-a junto ao Ministério da Guerra e foi criada a Diretoria Geral do Tiro de Guerra (DGTG), ficando diretamente subordinada ao Estado-Maior do Exército. Em razão dessa medida, as sociedades civis desapareceram, permanecendo somente os Tiros de Guerra. 

Remanescente daquele tempo e ainda hoje se encontra em plena atividade, o Centro Cultural e Desportivo Tiro 4, originário do Tiro 4, foi fundado em 24 de fevereiro de 1906 em Porto Alegre pelo Coronel Germano Steigleder. O Tiro 4 foi o principal clube de tiro do Rio Grande do Sul, promovendo inclusive os campeonatos brasileiros em 1951, 1962 e 1970, além dos Torneios Sul-Brasileiro e de alguns eventos internacionais contra as equipes da Argentina e do Uruguai nas décadas 80 e 90.

O Tiro 4 recebeu muitos sócios de origem alemã, como Sebastião Wolf, os irmãos Norberto e Oswaldo Schmidt e muitos outros. Na sua linha de tiro dois atletas gaúchos se destacaram ao ponto de serem convocados para integrar a equipe nacional: Sebastião Wolf e o Dr Dario Barbosa pertenceram à vitoriosa delegação brasileira que participou dos VIII Jogos Olímpicos de Antuérpia em 1920, conquistando as primeiras medalhas de bronze por equipe para o Brasil. Esses dois atiradores formados na linha do Tiro 4 também conquistaram uma medalha de bronze por equipe em 1910, no Concurso do Centenário da Argentina, realizado no estande do Tiro Federal Argentino. Na época dos Jogos Olímpicos da Antuérpia, Sebastião era o mais veterano e contava 51 anos de idade

Sebastião Wolf venceria ainda o Campeonato Brasileiro disputado em 13 de setembro de 1915, no Rio de Janeiro, superando respectivamente Afrânio Costa e o tenente Guilherme Paraense, medalha de prata e ouro nos Jogos Olímpicos da Antuérpia. A equipe gaúcha formada por Wolf, Dr Dario Barbosa, Norberto Schmidt, Oswaldo Schmidt e João Matuschhesk se sagraria campeã por equipe. Mais tarde Wolf se tornaria presidente do clube

O Tiro 4 inicialmente estava localizado no bairro da Floresta. Posteriormente, com o desenvolvimento de Porto Alegre, mudou-se para o bairro de Terezópolis. Em cima do seu portão principal constava o seguinte dístico: “Um esporte útil à Nação”, com o antigo logotipo da Confederação do Tiro Brasileiro. Em 1949, o seu diretor era o João Conrado Wolf, filho de Sebastião Wolf que havia morrido em 15 de março de 1936, também se tornara um bom atirador e preparou outros atletas para o clube. Na época o Tiro 4 possuía dez postos de tiro e contava com cerca de 300 associados participando ativamente das provas marcadas para os sábados e domingos.

João Conrado Wolf era uma pessoa muito comunicativa e no seu foto-estúdio instalado em Porto Alegre, vivia cercado de associados que iam lá ouvir as instruções técnicas ou as histórias contadas sobre o Tiro gaúcho. Conrado era chamado de “mestre” e tinha maior orgulho do seu pai Sebastião Wolf, ostentando com orgulho e carinho diplomas e fotos do pai com figuras olímpicas e um quadro com as inúmeras medalhas conquistadas. Dizia a quem o procurava que “a sua preocupação era de ensinar aos moços a arte de atirar bem e sentir-se feliz quando eles faziam belos tiros”.

Conrado também foi um bom atirador e incentivado por seu pai iniciou cedo no esporte. Já em 27 de novembro de 1921, no Grande Campeonato Brasileiro patrocinado pela Diretoria Geral do Tiro de Guerra e realizado na Vila Militar, classificou-se em 3º lugar na prova de revólver. Na prova de revólver do Campeonato Brasileiro em 13 de novembro de 1937, realizada por correspondência, obteve o segundo lugar atrás de Harvey Dias Villela. No Campeonato Brasileiro de 1938, obteve novamente o 2º lugar na prova de revolver. Em 1951, no Campeonato Brasileiro realizado no Tiro 4, Conrado venceu a prova de revólver 50 metros .

Mantendo viva a tradição da família Wolf, Arthur Wolf Filho foi também um excelente e versátil atirador de pistola livre e de carabina deitado. Em 1958 no Campeonato Brasileiro realizado em Porto Alegre, Arthur Wolf obteve o 2º lugar na prova de pistola livre. Em 1959, no Rio de Janeiro, conquistou a medalha de bronze em pistola livre. Em 1961, 1962 e 1963, novamente Arthur conquistou a medalha de bronze na mesma prova. Em 1966, no Campeonato Brasileiro realizado no Rio Grande do Sul, ele se classificou em 3º lugar na prova de fuzil de guerra. Novamente em 1967 no Campeonato Brasileiro obteve o 3º Lugar em pistola livre. Foi campeão gaúcho várias vezes (1971). Em 1973 venceu as provas de carabina deitado, carabina 3 posições e pistola livre no III Campeonato Sul - Brasileiro. Venceu as provas de carabina deitado dos Campeonatos Sul - Brasileiros de 1974, 1975, 1976, 1977, 1981 e 1982.Outros atiradores da família Wolf que se destacaram no cenário desportivo gaúcho foram Hermano e Léo Wolf.

O Tiro 4 foi até a poucas décadas o principal clube do Sul do País que sediou inúmeros e importantes eventos. O Clube viveu o seu melhor momento com a gestão do presidente Edson Garrastazu Almeida, que ampliou e modernizou o estande tornando-o um dos melhores do Brasil.


1920 – DARIO BARBOSA E SEBASTIÃO WOLF

 


MEDALHAS DE SEBASTIÃO WOLF

 

 


QUADRO COM A FOTO DE SEBASTIÃO WOLF

 


JOVEM SEBASTIÃO WOLF COM SEU REVÓLVER

 


WOLF COM SEU FUZIL DE GUERRA

 


ANTIGO ESTANDE DO TIRO 4

 


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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